Algumas considerações teóricas
Esta semana começamos uma nova turma de fotojornalismo na FESJF. Uma questão que achei importante pontuar tem ligação direta com o “fazer fotográfico” e diz respeito à concepção de “fotografia direta” e que, de certa forma, procuro explicar abaixo.
As teses fundamentais da fotografia direta, condensadas no princípio da objetividade, nutriam as necessidades técnicas, expressivas e filosóficas de muitos fotógrafos da primeira metade do século XX. Alfred Stieglitz, confessou suas idéias ao comentar as fotos de Paul Strand, publicadas na revista Câmera Work, em 1917: “ a obra era brutalmente direta, pura, carente de truques”. E Strand escrevia no mesmo ano com respeito ao papel da honestidade que devia desempenhar o fotógrafo: “este supõe um verdadeiro respeito por este objeto que está frente a ele, expressado em termos de claro/escuro… mediante uma gama de valores tonais quase infinitos que estão além da habilidade da mão humana”.


Pode-se entender que a fotografia direta contemporânea herdou um certo rigor daqueles anos. A influência de autores como Stieglitz, Paul Strand, Edmund Weston, Ansel Adams e Minor White, se percebe no modo de abordar os fenômenos sociais e, sobretudo, na teorização ortodoxa que alguns fotógrafos propunham ao conceber e produzir suas imagens. Assume-se então o compromisso único de documentar e plasmar a realidade objetivamente. Neste sentido, segundo Hugo Schottle, a fotografia direta poderia ser definida como:
“a fotografia imediata, que caracteriza a aspiração de alguns fotógrafos a uma fotografia não manipulada, comprometida com a realidade, a verdade e a estética. Fotografia direta é portanto, sinônimo de uma tendência fotográfica atual (especialmente na topographical-photography)” (SCHOTTLE, Hugo. Diccionario de la fotografia. Barcelona: Editorial Blume, 1982. pp 127).
Entretanto, é necessário destacar que esta definição clássica da fotografia direta – onde o registro da realidade que efetua o fotógrafo não é alterado de nenhuma forma – não constitui nem pode reduzir a complexidade do fazer fotojornalístico atual, a uma atividade consagrada exclusivamente a imprimir clichês dos acontecimentos sociais a partir de uma perspectiva objetiva e claramente descritiva, nem com a insustentável pretensão de que uma fotografia jornalística é a representação fiel e irrefutável de um fato real.
Estas atribuições – desmedidas – se explicam provavelmente porque a fotografia está catalogada como o referente icônico por autonomasia, situação que deriva no axioma que sustenta a fotografia desde sua invenção no século XIX: “ a representação direta da realidade é a propriedade prototípica específica da fotografia” (idem).
O fato das imagens fotojornalísticas surgirem de uma realidade social dinâmica, não implica que estas sejam a recriação exata da mesma. Canclini (1982), pergunta se é preciso recordar que o fotógrafo não copia o real, que reduz a tridimensionalidade do mundo à bidimensionalidade da imagem, que a tecnologia, o caráter monofocal e estático da representação, a intervenção da luz e o recorte do enquadramento oferecem sempre versões do real.


