Interesante entrevista dada pelo professor gaúcho ao blog “O jornalismo morreu”:

Entrevista: José Antonio Meira da Rocha

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Se eu visse minha vida passar na minha frente como um filme, seria isso (sem os momentos mais constrangedores): José Antonio Meira da Rocha é professor de jornalismo no IPA Metodista (Porto Alegre). Especialista em Informática na Educação, Mestre em Mídias, já foi editor de arte nos diários Zero Hora e Jornal do Comércio. Viciado em computadores desde 1988, mantém um site sobre mídias digitais.”Lamentamos a carência e um “capenguismo” jornalítico – isso na mídia tradicional – em relação ao uso de ambientes digitais informacionais. E agora você vem com o uso jornalístico do Google Earth! Quer despirocar de vez a cabeça da rapaziada ?

Huahuahuahua! O melhor é que a coisa vicia. É meio voyerismo digital globalizado . Não é à toa que a empresa criadora do Earth se chamava Keyhole, buraco de fechadura. Como a raiz do jornalismo é a necessidade do ser humano por fofoca e picuinhas da vida dos outros, nada mais lógico que juntar as duas coisas. Embora o grande hype de ambientes tridimensionais hoje seja o Second Life (mais por marqueteiros que por jornalistas), vejo o Google Earth (GE) como tendo possibilidades jornalísticas muito mais consistentes. Costumo fazer uma comparação: Google Earth é o retrato retocado da realidade sócio-geográfica. Então é jornalismo. Second Life são personagens de mentira num ambiente tridimensional de mentira . Então é ficção, literatura. Vejamos um exemplo: se acontece um acidente de avião, é possível fazer um mashup (maquete) no GE com as rotas, com aerovias corretas consultadas no NASA World Wind. Pode-se inserir modelos de aviões convertidos do MS Fligh Simulator, colocar fotos, prédios, vídeos do You Tube, links para diversas fontes. Isso tudo enriquece tremendamente uma narrativa jornalística. Um site web com a notícia textual pode terminar com um link para um arquivo KML do GE com toda a maquete. Neste caso, como o Second Life (SL) poderia enriquecer a matéria? Por isso vejo essa onda toda em torno do Second Life como uma bolha imobiliária digital. Não que não tenha alguma utilidade. O professor da PUCRS, André Pase, por exemplo, usa o SL para simulações de entrevistas coletivas. É um uso criativo. Mas como simulador, não como mídia para difusão jornalística.

UOL toma barriga na cobertura na “área colaborativa” do acidente da TAM, Estadão achincalha blogosfera e Folha de São Paulo abre espaço para comentários – em algumas notícias. Isso aí é desespero ou você consegue dar outro nome?

A imprensa estabelecida sempre andou atrás da internet. Nos idos de 1995, quando a coisa começou no Brasil publicamente, eu ainda comprava avidamente revistas sobre internet. Aí comecei a ver que as revistas fazem matérias que levam até três meses para serem publicadas, da pauta ao produto impresso. E quando a pauta foi criada, o fato já estava rolando há seis meses ou mais, na rede. Então, a imprensa está sempre atrasadíssima em relação ao que acontece na internet. Os jornais são mais ágeis, mas também estão atrasados. O resultado é que deixei de comprar revistas e jornais. Se eu estou vivendo os fatos na hora, em listas de discussão, na Web, me informando por RSS, não preciso de versões desatualizadas sobre o fato. Como seria de se esperar, em geral os grandes veículos de imprensa têm uma estrutura burocrática que os impede de tomar decisões ágeis. Quando um repórter consegue convencer o editor, e o editor consegue convencer o editor-chefe, e o editor-chefe consegue convencer o diretor, o fato já envelheceu. Para se ter uma idéia, o primeiro jornal a ter um editor de colaboradores é do interior de São Paulo, não da capital. Nem valorizar o estagiário da seção de cartas a imprensa mofada conseguiu fazer…

Google Earth, Jornalismo Colaborativo, metaversos, mídias móveis … Você nunca se perguntou se há mesmo quem produza tanto assim ? E se há realmente quem consuma tanta informação ?

É a pergunta que não deve se calar! 🙂 Produzir, há sempre gente produzindo e copiando coisas. A medida disto é a quantidade de memória produzida anualmente pela indústria (HDs, memórias flash etc.). Cada vez se produz mais informações. Cada serviço do Google ocupa “fazendas digitais” com centenas de milhares de PCs. A capacidade supera dezenas de terabytes. Seja lá o que for um terabyte, é muito. Mas são informações vendáveis? Dificilmente. Só uma fração poderia ser transformada em material jornalístico. Meu ditado preferido, aplicável à vida em geral, é: noventa por cento de tudo é uma merda. Em matéria de matérias jornalísticas, os dez por cento que sobram têm a concorrência de milhões de pessoas, mas é um público consumidor fragmentado, interesses diversos. A grande questão é como capitalizar isso (ou monetizar, que é o termo blogueiro da moda). A gurizada que faz blogs “monetizados” consegue ganhar um ou dois mil reais por mês. E são poucos. Isso não sustenta uma empresa, embora possa sustentar um pós-adolescente solteiro. Ao fim e ao cabo, o que vai determinar o futuro do jornalismo é a capacidade de ganhar dinheiro (que afinal, foi o que incentivou Gutemberg a desenvolver a imprensa em seu empreendimento Fábrica de Livros, fazer dois empréstimos com um banqueiro, perder sua empresa para o banqueiro, e tal). E isto está em cheque. Principalmente por conta do novo modelo publicitário tipo Google Adsense. A grande imprensa, em papel ou eletrônica, gasta rios de dinheiro e repassa isso para os anunciantes, que repassam isso para os produtos. Embutido em qualquer produto, estão de 5% a 10% de publicidade. É um modelo espalha-chumbo, porque o dinheiro rola mesmo se o leitor não ler o anúncio. O leitor que leu o anúncio e comprou o produto está pagando pelos que não leram. O modelo AdSense mudou isso, porque só paga o anúncio se ele surtir efeito. Isso dá à publicidade uma eficiência maior, e pode efetivamente diminuir os investimentos em publicidade, diminuindo também o preço dos produtos. Todos sairiam ganhando, menos a imprensa tradicional, que se formou num modelo de desperdício de recursos.

O ambiente acadêmico está mesmo preparado e preparando os estudantes universitários para lidar com a comunicação digital ?

Algumas instituições, sim, como a sua (hehe). Mas isso depende quase que unicamente dos professores porque as Universidades também são paquidérmicas como as empresas e demoram a se adaptar às situações. O problema é que talvez falte proatividade (Falei! Falei! Pode me matar!) dos professores e maior compreensão da rede. Isso só se consegue freqüentando a rede, listas de discussão, lendo a Web, RSS. Pelo que eu leio dos estudantes, são poucos professores que têm essa desenvoltura. Até mesmo algumas instituições que tomam a dianteira o fazem de maneira equivocada. Só para dar uma idéia, tem uma aqui no Sul que montou um curso de Comunicação Digital e sequer alugou um servidor Web para os alunos praticarem. Algo que custa hoje apenas 80 reais por mês, imagine! E oitenta por cento dos professores não tinham capacitação em mídias digitais, estavam ali apenas para emprestar seu título de doutor.

Vamos brincar de Frankenstein: monte o webjornalista ideal para você.

A pessoa deveria saber:
1.Ler muito, inclusive em inglês.
2.Escrever bastante.
3.Pesquisar na internet e relacionar as informações encontradas.
4.Operar planilhas e editores de texto.
5.Operar programas de email e messengers.
6.Participar de diversos fóruns e listas de discussão.
7.Fotografar, manipular as fotos em programas específicos, distribuir as fotos em fotologs.
8.Fazer e editar vídeos em celular ou câmeras domésticas, publicar e embutir estes vídeos em páginas Web.
9.Gravar entrevistas com seu MP3 player ou celular.
10.Editar áudio digital e fazer podcast.
11.Contratar e instalar serviços em hospedagem internet (CMS, blogs, sistemas de workgroup, fóruns, galerias de fotos).
12.Gerenciar um sistema gerenciador de conteúdo (CMS), blog, fórum.
13.Conhecer HTML o suficiente para fazer links ou modificar templates e skins.
14.Usar sistemas de anúncios tipo AdSense.
15.Assinar e gerenciar uma enorme lista de feeds RSS sobre sua especialidade.
16.Trocar arquivos em sistemas peer-to-peer ou de troca de grandes arquivos.
17.Fazer mashups, mapas e modelos 3D com Google Maps, Google Earth e Google SketchUp.
18.Gerenciar, com diplomacia, comunidades de leitores.
19.Resolver pepinos e abacaxis em seu computador.
20.Estar sempre antenado com as tendências das mídias digitais.
Só isso. É pedir demais? 🙂