Deixo aqui, um texto de  Dorrit Harazim. É um texto que precisa de uma leitura atenta, feito para reflexão.  Nas próximas aulas, será um tema recorrente tal discussão, por isso peço que façam suas pesquisas, que ampliem o máximo a discussão. Aguardo comentários.  O texto está Disponível  no OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA.  Boa leitura. 

“Ás vezes nos sentíamos como urubus. Pisamos em cadáveres, metafórica e literalmente, e fizemos disso nosso ganha-pão. Mas nunca matamos ninguém. Acredito que salvamos algumas vidas. E talvez nossas fotos fizeram alguma diferença”, conclui Greg Marinovich, um dos quatro fotojornalistas sul-africanos que diariamente se embrenhavam nas cidades-dormitórios de Johanesburgo para fotografar a fase mais bestial (1990-1994) da violência entre facções negras. Não fosse por Greg, João, Ken e Kevin, todos eles brancos de classe média, esse painel da brutalidade intestina na África do Sul talvez tivesse permanecido clandestino. Negros morriam como moscas, abatidos como gado – foram 16 mil, só na periferia da grande cidade. As imagens dessa matança renderam prêmios internacionais e fama meteórica aos quatro amigos, até então desconhecidos da grande mídia internacional.

Ao longo do desmantelamento final do regime de apartheid – que começa com a libertação de Nélson Mandela, após 27 anos de cadeia, e vai até a sua eleição para presidente, em 1994 – Greg, João, Ken e Kevin fizeram história e foram notícia. O custo pessoal e emocional, porém, foi alto. The Bang Bang Club é a história desse grupo contada através de uma só voz, a de Greg Marinovich. João Silva, que co-assina o livro, continua fotografando, mas aprendeu a ter medo. Ken Oosterbroek, primeiro sul-africano a ganhar um Pulitzer, morreu às vistas dos companheiros no meio de uma fuzilaria, com o dedo ainda grudado no disparador da câmera. O quarto da gangue, Kevin Carter, suicidou-se aos 33 anos, com uma mangueira enfiada na boca. Acoplara a outra extremidade ao cano de descarga do carro.

Os quatro pertencem à raça dos jornalistas e fotógrafos que só se sentem vivos trabalhando em situações extremas – e preferivelmente do outro lado do mundo, fora do alcance de contas a pagar, parentes a visitar, chefes burocráticos a suportar. Entra ano sai ano, essa legião estrangeira se move entre focos de guerra e de miséria humana. Aos poucos vão se tornando apátridas no convívio social corriqueiro, desgarrados no tempo e no espaço. Como soldados retornados de uma guerra, têm dificuldades de interlocução em casa. De que adianta tentar contar uma alucinação, explicar que o medo tem cor, que a morte não existe – ou que o gênero humano já morreu? “Quando se tenta”, escreve Greg, “recebe-se um olhar de incompreensão ou de asco. Só conseguíamos falar dessas coisas entre nós”. O retorno à “vida civil” é quase impossível. Pouco a pouco, os laços familiares vão parecendo ralos e rasos quando comparados às vivências extremas compartilhadas com os companheiros de risco. “Sofro de depressão com o que vejo, tenho pesadelos. Me sinto alienado de gente normal, inclusive da minha família. Me sinto incapaz de entabular uma conversa social frívola. É como se uma cortina descesse. Me retraio para um lugar escuro”, admitia Kevin. Talvez seja a categoria profissional que mais teme a aposentadoria.

Esse bando de profissionais nômades que competem entre si mas dependem um do outro, vive aos sobressaltos tentando farejar onde vai explodir a próxima crise. Para os jovens fotojornalistas do Bang Bang Club, não foi preciso ir longe. A terra estrangeira em combustão estava logo ali, a menos de 30 km de suas casas. Mais precisamente, em Thokoza, Soweto, Boipatong, as cidades-dormitórios que durante décadas enjaularam os negros na periferia de Johanesburgo. Às vésperas do desmanche da estrutura do apartheid – período que vai da libertação de Nélson Mandela, após 27 anos de cárcere, à sua eleição para presidente da nação em 1994 – foi ali que os seguidores de Mandela e os partidários do chefe zulu Buthelezi, apoiado pelos brancos, se enfrentaram com fúria jamais vista.

Numa tarde de verão de 1990 Greg Marinovich, então com 27 anos, fazia sua ronda em Soweto munido de algumas câmeras obsoletas. Ele tinha se iniciado na fotografia como forma de conhecer vidas diferentes da sua. “Descobri que não há nada melhor do que uma câmera para dar vazão à curiosidade”, dizia. De fato, jornalistas e fotógrafos do mundo inteiro costumam se escudar nas demandas da profissão para fuçar, inquirir e invadir sem pedir licença. Lembra que sentiu um medo indistinto e abstrato de ser morto. Conseguira chegar no interior de um alojamento coalhado de Zulus quando viu um deles passar correndo pelo corredor, empunhando barras de ferro. Atrás, outro zulu brandia um cano de aço. Foram se juntar a um ruidoso grupo de homens que forçava a porta pintada de branco de um dos quartos. Tinham paus, pedras e lanças nas mãos. Pareciam se divertir antecipadamente. “Tem um xhosa escondido aí dentro, e ele está armado”, explicaram a Greg. Quando a porta cedeu, uma figura negra com olhos de medo e turbante na cabeça tentou furar o cerco. Na mão, tinha apenas uma vassoura. A execução foi rápida. “Meus ouvidos registraram um som surdo de metal entrando em carne humana, seguido do tom oco de paus esmagando a ossatura do crânio”, lembra o fotógrafo. “Eram sons que eu nunca ouvira antes, mas que tinham a sua lógica”. Greg se posicionara entre os matadores e começou a registrar tudo com uma lente grande angular. Nem por um instante deixou de checar o fotômetro. Alternou com precisão o manuseio das duas câmeras que trazia no pescoço – uma com filme preto e branco, a outra com cor. “Eu estava tão consciente do que fazia quanto do cheiro ocre de sangue fresco…. Aquela era a minha chance de deixar uma marca no universo do fotojornalismo”, relata no livro. Estava convencido da importância daquelas fotos brutais que, a seu ver, retratavam melhor do que mil palavras o horror do que se passava nas cidades-dormitórios. Voltou eletrizado para Johanesburgo e ofereceu seu material ao editor local da agência de notícias Associated Press. Começava assim a se distanciar da malta de fotógrafos anônimos eternamente duros.

Greg Marinovich passou a freqüentar a periferia quase diariamente. “Eu estava me viciando na adrenalina da ação e na idéia de estar fotografando a última arrancada do país rumo à sua libertação”, relembra. Conta sem adornos como foi catapultado do anonimato para o prêmio Pulitzer de 1991, em apenas um mês: estava na hora certa no lugar certo (Soweto) quando um negro zulu, suspeito de ser partidário do Inkhata, teve a infelicidade de descer do trem na estação errada. Foi executado ali mesmo por partidários de Mandela. Primeiro, foi espancado com ferocidade. Depois, teve o peito perfurado pela faca curva de um atacante de camisa branca. Era apenas o começo. “Vi um garoto de barba ainda rala dar um passo à frente, ficar na ponta dos pés, e enterrar outra faca no tórax da vitima, cujo olhar se mantinha vazio. Eu batia uma foto atrás da outra. Durante aqueles momentos cruciais, era como se eu tivesse perdido contato com o que ocorria à minha frente. Eu estava lá mas não registrava nada através dos meus sentidos. As fotos que eu tirava mecanicamente substituiriam mais tarde os acontecimentos que minha memória não guardaria”. Quando os matadores atearam fogo ao zulu, o fotômetro de Greg pifou. “Arrisquei uma abertura f.5,6 e apertei o disparador”, relembra. Por fim, um negro descalço e sem camisa entrou em quadro e arremessou um machete no que restava da cabeça da vítima. Greg saiu dali quando o moribundo ainda emitia um som monótono, aterrador. “Só no dia seguinte, lendo os jornais, vim a saber o nome do morto: Lindsaye Tshabalala. Nunca mais vou esquecer esse nome. Durante todo o tempo em que estive perto dele, ele era apenas um anônimo zulu.”

Não é a qualidade do texto que faz de The Bang Bang Club um livro notável. É a honestidade em deixar emergir as contradições, rancores e fraquezas do grupo. Como dizem os autores, acabou sendo uma viagem de descoberta e não um relato do que ocorreu. “Há muita raiva e amargura”, admite Greg.

Apesar do receio da AP em Johanesburgo de que as fotos de Lindsaye fossem gráficas demais para o mercado americano – a tolerância dos jornais dos Estados Unidos com imagens cruas é menor do que na Europa – a central da AP em Londres decidiu liberar a série para distribuição mundial. Como previsto, a grita foi grande do outro lado do Atlântico, com diretores de jornal e publishers protestando alto. Mesmo assim, a série levou o Pulitzer de 1991 na categoria Instantâneo. Cabe, aqui, fazer um parênteses e uma pergunta. Mais ou menos à mesma época (início dos anos 90) um atentado terrorista em Jerusalém tinha deixado o seu rastro de morte espalhado na rua. Entre as vítimas, uma senhora idosa, gorda, esparramada no chão. De frente. A mulher, castigada pela idade, há muito deixara de cuidar do corpo. Provavelmente não o mostrava nem mais para si mesma. Vestia roupas íntimas que mais pareciam uma armadura, de tão grandes. Imagine-se o horror dessa senhora, ou de seus familiares, em se ver estampada em todos os jornais do mundo com o corpo à vista. Em meio às centenas de imagens do atentado disponíveis, porque não considerar essa a mais violenta? O que fere mais a identidade da vítima, a foto da senhora de Jerusalém ou a do zulu em chamas?

O Pulitzer teve efeito imediato sobre a carreira de Greg. Conseguiu seu primeiro contrato como correspondente de guerra na Croácia. Em questão de dias, estava na linha de frente, lugar reservado para a elite do jornalismo. “Descobri que gostava de guerra. Você sente uma excitação única, singular”, escreve. Era o traço comum mais forte do grupo.

Ken Oosterbroek começou na carreira oferecendo fotos tiradas clandestinamente de seus tempos de serviço militar obrigatório no exército sul-africano. Também mantinha um diário. Em 1989, ao ser premiado como Fotógrafo do Ano, fez uma anotação: “Noite maravilhosa, cheia de elogios, sorrisos, congratulações e um troféu em forma de fatia de queijo. Na manhã seguinte, espécie de vazio. E agora? Que me dêem a chance de fotografar algo de magnitude. A vida real, enquanto ela ocorre. Quero um trabalho de impacto. Algo que faça subir a adrenalina, que inunde o cérebro com a possibilidade e o potencial de fazer fotos poderosas. Sou um fotógrafo. Me dêem liberdade.”

Kevin Carter, o caçula da gangue, foi o primeiro fotojornalista a registrar a novidade que os negros instituíram para punir delatores, e que passou a ser conhecida como “colarinho”. Ou “carne queimada”. Ou “três centavos” (o preço de uma caixa de fósforos). Enfiava-se um pneu encharcado de gasolina no pescoço da vítima, e ateava-se fogo. Após testemunhar e fotografar a execução de uma jovem, acusada de namorar um policial, Kevin desabafa com os amigos: “Fiquei horrorizado com o que faziam, fiquei horrorizado com o que eu fazia…Mas talvez minha ação não tenha sido de todo má”. Kevin, que ostentava uma tatuagem do mapa da África no ombro direito, aterrissou na profissão com uma coleção de problemas pessoais na bagagem. Vinha de um ambiente familiar disfuncional, desertara do serviço militar, e já tinha tentado o suicídio.

Dos quatro, foi o moçambicano João Silva, educado em Portugal e imigrado na África do Sul, quem escolheu a profissão com a maior clareza: queria cobrir guerras. Ponto. Baixinho e feio, não se encaixava em nenhuma turma de brancos de Johanesburg. Um dia, fotografou uma jovem negra sendo atacada a golpes de foice por um grupo de mulheres de Thokoza. Foi seu batismo. Rebelde, sempre mal ajambrado e com a barba por fazer, tratava seus editores de fotografia e o perigo de fotografar com a mesma atitude: “danem-se”.

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João Silva  – NYTimes (WorldPress Photo – 2006)

Com o passar dos anos, o grupo foi sentindo os efeitos do trabalho que escolheram. João se tornara mais quieto e retraído. Kevin tinha picos e abismos emocionais. Queixava-se de um pesadelo recorrente, no qual se via estirado no chão, à beira da morte, com uma câmera de televisão se aproximando mais e mais de seu rosto. Acordava aos berros. Para João, as vítimas fotografadas pelo grupo de amigos certamente sentiam o mesmo medo, raiva e desesperança ao terem seus últimos instantes de vida focados por uma câmera. Raramente discutiam a questão central – quando é que você deve apertar o disparador e quando deve cessar de ser fotógrafo – mas João sempre argumentava que eles talvez devessem pagar um preço pelas fotos que tiravam. O tema sempre deixava Kevin intranqüilo. Numa noite em que havia bebido e fumado muito, Kevin admitiu pela primeira vez ser viciado num coquetel perigosíssimo: Mandrax, maconha e tranqüilizante. Em conjunto, eles haviam testemunhado tantos massacres que acabaram perdendo a conta. “Tentei contar o número de cadáveres que eu já tinha fotografado, para pelo menos reconhecer sua existência, mas não consegui. Cadáveres são objetos estranhos”, concluiu Greg. Em um dia qualquer de chacina em Thokoza, sobraram 143 cadáveres nas ruas.

Certo dia, um consultor contratado para fazer a radiografia do jornal sul-africano onde Ken era editor e os outros três trabalhavam, recomendou que João consultasse um psicólogo. Kevin também deveria parar de cobrir o ciclo de matanças da periferia. Estavam todos chegando perto do limite, mas continuavam competindo entre si. Quando João anunciou que partiria para o Sudão, cobrir o genocídio de tribos cristãs pelo governo islâmico da época, Kevin decidiu ir junto, numa tentativa de revitalizar sua carreira. Foi ali que as duas carreiras se cindiram. O meticuloso João, que já conhecia o Sudão, montara a pauta, fizera todos os contatos e pesquisara a fundo o que havia a fotografar, percorreu a aldeia de Ayud sem encontrar nada que lhe parecesse valioso. Kevin, que só tinha pegado carona na pauta, percorreu a mesma aldeia e retornou com uma febrilidade na voz. “Cara, você não vai acreditar o que acabo de fotografar!”. João não gostou da introdução – nenhum fotógrafo gostaria. “Eu estava fotografando uma criança, mudei de ângulo, e de repente vejo um urubu atrás dela. Continuei fotografando”. Onde?, perguntou João, alarmado. “Ali”, apontou Kevin. João já tinha fotografado a mesma criança, mas sem urubu. “Acabo de enxotar o abutre”, sentenciou Kevin. Ambos retornaram à África do Sul em silêncio. A foto cruzou o Atlântico e foi abocanhada com exclusividade pelo jornal mais prestigioso do mundo.

Quando a editora de fotografia do New York Times acordou Kevin numa madrugada, para lhe comunicar que ele acabara de receber o prêmio Pulitzer daquele ano, ficou alarmada. Kevin parecia não reagir, não entender a gloriosa notícia. Respondia confusamente, parecia chapado, só falava de como ele ia mal no emprego. “Kevin”, insistiu Nancy Lee, “você está entendendo o que acabo de dizer? Você ganhou o Pulitzer, todo o resto não interessa”. “Sei”, respondeu apenas o fotógrafo do outro lado da linha. A direção do jornal começou a ficar inquieta. Há muito se perdeu a conta de quantos Pulitzer de reportagem que o NYT já ganhou. Contudo, jamais tinha conseguido levar o prêmio de fotografia. Naquele ano, pela primeira vez, o NYT indicou um fotógrafo freelance que não fazia parte da equipe da casa. E ganhou. Mas como fornecer o telefone de Kevin ao resto da imprensa mundial, que o caçava, quando ele parecia estar sempre embriagado?

Enquanto isso, a foto corria o mundo como emblema da fome na África. Primeira página de todos os jornais, foi transformada em pôster, usada em campanhas filantrópicas. Mas dela brotou, também, uma questão que perseguiria Kevin Carter até a morte: depois de bater a foto, o que fez o fotógrafo para ajudar a criança caída? À medida em que o tema engrossava – crianças de escola americanas queriam saber, equipes de televisão do mundo inteiro pressionavam por uma resposta – Kevin variava sua versão. “Odeio esta foto”, declarou numa de suas últimas entrevistas, para a revista American Photo. Greg, no livro, faz uma reflexão genérica sobre a moralidade desse tipo de trabalho de campo. “João e eu também vimos muitas crianças morrer à nossa frente, na Somália, e só fotografávamos. Fotos boas. Tragédia e violência produzem imagens fortes. Somos pagos para isso. Mas há um preço embutido em cada imagem dessas: um pedaço da emoção, da vulnerabilidade, da empatia que nos torna humanos se perde a cada vez que acionamos o botão da câmera”.

A seis dias da virada da África do Sul para um regime democrático, a gangue estava novamente fotografando a Guerra intestina da periferia. Greg foi o primeiro a levar um tiro no peito, que lhe abriu um rombo do tamanho de laranja. “Num plano intelectual, eu admitia a possibilidade, talvez até a probabilidade, de algum dia ser ferido. Mas no plano emocional eu me considerava intocável, imortal. A patética crença de ter o controle sobre mim, meu destino e meu entorno imediato foi estraçalhado”, contaria mais tarde. Como primeira reação, João Silva se pôs a fotografar furiosamente o companheiro ferido. Segundos depois, em meio ao pandemônio, alguém grita: “Ken foi atingido”. Num segundo surto, João se pôs a registrar o momento da morte de seu melhor amigo. Olhos abertos já sem expressão, com uma trilha de sangue a lhe escorrer pela boca, sendo puxado por outro jornalista. “Ken vai gostar de ver as fotos amanhã”, pensou ainda, numa defesa instintiva contra o fato real. Ocorreu-lhe também que Ken, sempre o dandy do grupo, talvez preferisse ser fotografado com o cabelo mais em ordem. Ken, o profissional consumado, passou anos incutindo em João a ética de fotografar primeiro e lidar com o resto depois.

Para João, o “depois” foi terrível. “Como pude fazer aquelas fotos de Ken? Será que perdi minha alma?” perguntava soluçando no colo de Kevin. “Pelo menos você estava lá”, respondeu sombriamente o amigo, que naquele dia, excepcionalmente, tinha abandonado a fuzilaria para conceder uma entrevista sobre o Pulitzer em Johanesburgo. Suicidou-se poucos dias depois. Resta a frase que Ken Oosterbroek escreveu no diário numa sexta feira de abril de 1988: “Espero morrer com fotos do cacete no meu rolo de negativos – se não for assim, não terá valido à pena’. Valeu? O debate está aberto”.

 

A seguir, um trecho traduzido do livro “The Bang Bang Club” (BasicBooks)

 

Greg Marinovich e João Silva

 

“‘Não dá foto’, murmurei, enquanto olhava através de minha câmera para o soldado que disparava metodicamente contra o abrigo. Voltei-me para o grupo de soldados apavorados, parcamente treinados, tentando proteger-se contra a parede na qual eu estava. Seus olhos corriam de um lado para o outro encobertos pelos capacetes de aço. Queria capturar aquele medo. Então um golpe atingiu meu peito. Maciço. Uma martelada. Perdi um segundo, trecho rápido da minha própria vida, e então me vi no chão, jogado entre as pernas dos outros fotógrafos trabalhando perto de mim. A dor tomava meu peito pelo lado esquerdo e se espalhava pelo torso. Ia muito além do ponto no qual eu imaginava qualquer dor terminando. ‘Porra! Me pegaram, me pegaram! Porra! Porra! Porra!’

O fogo automático continuava a vir ao longo da parede. João e Jim, desesperados, me arrastavam pelo colete para mais perto, procurando abrigo próximo dos soldados e longe da sua linha de tiro. Então uma voz angustiada rompeu a dissonância. ‘Ken foi atingido!’ Lutei para virar a cabeça enlaçada pelas câmeras e alças no pescoço. Alguns metros na frente vi um par comprido de pernas, as pernas magras de Ken, como que nascendo da parede de concreto. Estavam imóveis e separadas uma da outra num ângulo improvável. Jim correu para onde estava Gary, agarrando Ken, procurando um sinal de vida. O estouro esporádico dos disparos em alta velocidade das metralhadoras automáticas revebereravam pelo ar, cercando a horda de jornalistas e soldados que tentavam se proteger contra a parede.

O sangue escorria pelo buraco da minha camiseta. Tentei tapá-lo com minha mão para impedir o sangramento. Imaginava um buraco da saída da bala mortal, um rombo nas minhas costas. ‘Procura um buraco de saída’, disse para João. Ele me ignorou. ‘Você vai ficar bem’, disse. Achei que devia estar feio se ele não queria olhar, e como se tudo aquilo estivesse num filme de quinta, pedi-lhe para deixar um recado para minha namorada. ‘Diga a Heidi que sinto muito… que a amo’. ‘Diz você mesmo’, ele respondeu.

Então uma sensação de calma profunda tomou conta de mim. Tinha acabado. Tinha pago minhas dívidas. Era a reparação para as tantas vezes em que cheguei tão próximo, vezes nas quais outros tinham saído feridos ou mortos, de quando saí de cenários de terror sem um arranhão, com fotografias, tendo cometido o crime de ser um voyeur de sorte.

Jim voltou agachado por entre o fogo e murmurou ao meu ouvido. ‘Ken se foi mas você vai ficar bem.’ João ouviu e levantou-se para correr na direção de Ken, mas outros já o estavam ajudando. Posicionou sua câmera. ‘Ken vai querer ver essas fotos depois’, disse para si mesmo. Consigo mesmo, reclamou do cabelo de Ken sobre o rosto, ferrando com a fotografia. João nos fotografou aos dois – dois de seus melhores amigos – eu esparramado no concreto tentando tapar meu peito; Ken sendo jogado na traseira de um veículo de guerra por Gary e um soldado, sua cabeça pendendo solta como a de uma boneca de pano e suas câmeras penduradas inúteis pelo pescoço. Então foi a minha vez de ser posto no veículo. Jim segurou meus ombros, João as pernas, mas eu sou grande e os carinhos de Heidi contribuíram para uns quilos a mais. ‘Bicho, você está gordo’, brincou João. ‘Posso andar’, resmunguei tentando rir, mas parecendo estranhamente indignado. Eu só queria lembrá-los do peso das câmeras.

Depois de quatro longos anos observando a violência, as balas finalmente nos alcançaram. O bangue-bangue tinha sido bom para nós até agora.

De manhã cedo estávamos trabalhando nas ruas e vielas nos fundos de Thokoza, uma cidade devastada, terra de ninguém. Ken Oosterböek, Kevin Carter, João e eu nos acostumamos ao longo dos anos a procurar confrontos entre polícia, soldados, guerreiros Zulu modernos e garotos carregando Kalashnikovs no final sangrendo do apartheid.

Kevin não estava conosco quando começou o tiroteio. Tinha deixado Thokoza para conversar com um jornalista da região sobre o Prêmio Pulitzer que tinha recebido pela chocante foto de uma criança faminta sendo espreitada por um abutre no Sudão. Ele não tinha certeza se queria mesmo ir. João aconselhou-o a ficar, que embora nada estivesse acontecendo, as coisas provavelmente esquentariam de novo. Mas Kevin estava curtindo seu novo status de celebridade e foi de qualquer jeito.

Durante um churrasco em Johannesburgo, Kevin tinha contado sobre as várias vezes em que tinha escapado por pouco. Depois da sobremesa, disse ao jornalista que tinha acontecido um tiroteio naquela manhã em Thokoza e que ele precisava voltar. Enquanto dirigia de volta, uns 16 quilômetros passados de Johannesburgo, ouviu no rádio que Ken e eu havíamos sido atingidos – e que Ken estava morto. Correu em direção ao hospital local para onde eu havia sido levado. Kevin quase nunca usava um colete a prova de balas. Nenhum de nós usava, João até se recusava a usar. Mas, na entrada da cidade, Kevin vestiu seu colete. De repente sentia medo.

Não éramos mais intocáveis e, antes que as manchas de sangue secassem daquela parede, mais um de nós estaria morto.