© Taslima Akhter – desabamento de edifício em Daca – Bangladesh

A fotógrafa Taslima Akhter até hoje não sabe quem são nem que tipo de relação mantinham. Nos dias que se seguiram ao desabamento do edifício Rana Plaza em Daca, Bangladesh, ela tentou  encontrar respostas para muitas perguntas que surgiram  depois de horas e horas fotografando os corpos aprisionados nos escombros. Sem pistas,  o casal de anônimos, que se abraçam no momento fatal do colapso do edifício – onde mais de mil vítimas pereceram –  tornou-se um dos muitos  símbolos da tragédia e essa imagem persegue  o pensamento da fotógrafa.

Akhter, que trabalha sobretudo em temas ligados à denúncias de trabalho escravo, fotografou intensamente o desenrolar dos acontecimentos logo depois da notícia do colapso do edifício. Passou o dia entre destroços, equipas de resgate e salvamento e olhares de famílias desesperadas que procuravam entes queridos. Esses olhares marcaram-na, eram olhares “assustados”. Akhter fotografou, fotografou, fotografou até ficar exausta física e psicologicamente. Ao início da tarde (o complexo ruiu por volta das 9h locais), deparou com um casal abraçado, rodeado de ferros retorcidos e semi-coberto por destroços. A reação da fotógrafa foi de espanto. Sentiu depois proximidade, familiaridade. “Não queria acreditar. Senti que os conhecia – senti-os muito próximos de mim. Vi quem eles eram no último momento em que estiveram juntos e em que tentaram se salvar”, disse a fotógrafa num depoimento escrito que enviou à revista Time.

Apesar desta ligação imediata (e íntima) em relação àquela cena e àqueles dois seres humanos, Taslima Akhter confessa “desconforto” em cada vez que olha para a sua fotografia. Sente-se “estremecida” não tanto pelo momento extraordinário que captou, mas sobretudo pelo seu poder inquisitivo e comovente: “É como se estivessem a dizer ‘Não somos números – não somos só mão-de-obra barata com vidas baratas. Somos seres humanos. A nossa vida é tão preciosa como a tua e os nossos sonhos também são preciosos’”.
Via Público (Portugal)