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documentário fotográfico. Cultura

Documentário apresenta o dia-a-dia dos fotojornalistas cariocas…


Talvez vocês já tenham tido acesso ao documentário “Abaixando a maquina”, que fala sobre a ética e o cotidiano do fotojornalismo.


 

 

O cotidiano do fotojornalismo policial carioca, a tensão, o medo, os dilemas e a ética na cobertura da violência nas comunidades carentes constroem o mosaico de imagens e depoimentos de ‘Abaixando a Máquina’, documentário do fotógrafo Guillermo Planel e do jornalista Renato de Paula . 

 

“Mostramos como funciona a profissão, a ação dos fotógrafos nos confrontos armados, o drama diante das famílias que encontram parentes mortos. Será que existe o momento de abaixar a máquina?”, pergunta Guillermo. “O filme levanta questões, mas não existem conclusões. Ficam para o julgamento de cada um”, afirma.

 

O documentário em longa-metragem, produzido de forma independente, abdica da narrativa em off e traz longa seqüência de depoimentos dos principais repórteres fotográficos cariocas, ao mesmo tempo em que exibe uma vasta seleção de imagens da guerra entre bandidos e policiais travada diariamente nas favelas, morros e ruas da cidade.

 

“Muitas vezes saímos de casa sem saber se voltaremos”, diz, no filme, o premiado otógrafo Severino Silva, de O Dia, um dos melhores profissionais do Brasil. Há também fotos e depoimentos de outros profissionais do jornal, como Alexandre Brum, Carlo Wrede, João Laet, Uanderson Fernandes e Nilton Claudino.A equipe de filmagem acompanha a ação dos profissionais das lentes em tiroteios, como o momento em que Uanderson registrou o traficante baleado na fuga. “Não tem jeito, ficamos torcendo para a ação acontecer”, diz Nilton Claudino.

 

A qualidade do material exibido impressiona e as imagens premiadas não deixam o espectador desgrudar os olhos da tela. Os diretores negociam a exibição do filme em maio, em circuito comercial, e planejam levar o trabalho a comunidades e escolas para debates.

 

A emoção dos fotógrafos com seus cliques

 

‘Abaixando a Máquina’ mostra profissionais que não se acostumam com a violência que passa diariamente diante de seus olhos, lembram de suas famílias e deixam a emoção vir à tona em momentos como o depoimento do fotógrafo Wilton Jr., que chora ao lembrar da foto feita num velório, congelando a imagem de várias crianças chorando ao lado do amigo morto, no caixão.

 

O fotógrafo Custódio Coimbra, na cobertura da tragédia com o ônibus 174, lembra do momento em que enquadrou na lente o bandido dentro do ônibus, que agia como se tirasse na sorte, entre duas mulheres, qual delas iria matar, com a pistola apontada para as cabeças. “Pensei: se esse cara atirar não vou mais ser fotógrafo”, afirma. Há também depoimentos de delegados, políticos e professores de fotografia, tecendo análises de cunho sociológico sobre a moderna profissão do fotógrafo policial.

 

Seguem ainda dois links para trechos do documentário: 

 

http://br.youtube.com/watch?v=JGk6J59C7OE

 

http://mediacenter.db4.com.br/?id=393

Uma conversa com Sebastião Salgado…


 Direto do blog português Arte Photográphica, do Sérgio Gomes, uma interessante conversa com Sebastião Salgado que acaba de lançar o livro “África”, com imagens coletadas em mais de 20 anos de viagens ao continente.

Salgado, 63 anos, ainda respondia aos jornalistas quando a mesa do auditório da FNAC já era preparada para a apresentação de outro livro, desta vez relacionado com homeopatia. O fotógrafo olhou à sua volta e ficou espantado com a velocidade de transformação da plateia, com a forma como aconteciam coisas tão distintas num espaço tão pequeno. “Os pedreiros que fizeram isto jamais imaginam o que se passa aqui hoje”, lançou.
Perante uma sala cheia, aquele que é considerado um dos maiores fotojornalistas vivos falou da sua relação com África, da primeira viagem ao imenso continente (ainda como economista), do dia em que acompanhou as tropas da Frelimo, em Moçambique, da amizade com Mia Couto. No fim deu autógrafos. Muitos autógrafos. Foram quase duas horas a escrever nas primeiras páginas do seu último álbum que reúne imagens de uma grande viagem por África que já dura mais de 30 anos.

Por que é que fotografa?
Primeiro porque a minha profissão é fotógrafo, adoro fotografar. Quando pego na minha câmara e vou trabalhar é de manhã à noite. É um prazer fotografar. Já levo trinta e tal anos a fotografar e ainda não encontrei um dia no meu trabalho que não fiz com prazer. Em segundo lugar, é a minha forma de vida é o que eu sei fazer. Enquanto tiver prazer vou continuar. Para mim não há limite de tempo ou de idade. Aliás, isso é uma característica de muitos fotógrafos. Em 2002, quando cheguei ao México à casa de Don Manuel Álvarez Bravo [mestre da fotografia do séc. XX que morreu nesse ano] para comemorar o seu 100º aniversário, ele disse-me: “Sebastião! Tenho de te mostrar as minhas últimas fotografias!”. E eu perguntei: “Mas, Don Manuel, você ainda fotografa?”. E ele respondeu: “Sim, claro!”. E quando vi as fotografias eram dos pés dele. Don Manuel já não podia andar. Eram uns pés machucados e ele fotografava esses pés o dia inteiro. Essa é uma característica dos fotógrafos, são pessoas que normalmente vivem muito no mundo deles. Desligam-se de outras coisas e fotografam até ao fim. Tive um amigo que morreu agora em Paris com 94 anos e ainda fotografava. É uma forma de vida.

Sente-se confortável com o rótulo de fotógrafo humanista que lhe é atribuído?
Não sou um fotógrafo humanista! Isso foi um rótulo que algum bobo me colocou e ficou assim. Sou simplesmente um fotógrafo. As pessoas não conhecem todo o meu trabalho. Faço muita fotografia industrial, faço muita fotografia de publicidade e faço uma quantidade de retratos para o “New York Times”. Hoje estou a fotografar a natureza. Esse rótulo de fotógrafo humanista é uma bobagem que me foi colocada em algum momento e todos repetiram.

Que papel ainda pode ter a fotografia no feroz jogo geo-político em que estamos mergulhados?
Tem um grande poder. Mais do que nunca. A fotografia tem uma capacidade muito forte de transmissão. É difícil, hoje, num sistema de transmissão como a Internet comunicar em várias línguas. Esse problema não acontece com a fotografia. A linguagem da imagem não precisa de tradução. É também por isso que a fotografia tem um papel mais importante do que tinha antes. É muito mais importante hoje na transmissão de ideologias, de pensamentos, de informação.

Ao longo do seu trabalho, sobretudo aquele em que está representada a figura humana, vemos que assume quase sempre um lado da barricada. Não tem receio que as histórias que nos conta sejam demasiado parciais?
Mas que bom! É isso mesmo, bem parciais. Alguém tem que fazer um lado. Outra pessoa vai fazer o outro e o conjunto vai fazer um todo. Por exemplo, tenho um amigo que só fotografa a comunidade judia. E eu fotografo determinadas coisas que para mim foram importantes. Vim de um país de problemas, de um país em desenvolvimento. Vim de uma formação ideológico-política de esquerda e essa tem sido a minha forma de vida. Tem de haver uma coerência com a minha maneira de pensar. É isso mesmo: a minha fotografia é bem parcial.

Ao contrário do que acontecia nos primeiro trabalhos, parece que agora lhe interessam cada vez mais temas como a terra, o mar, os animais. Sentiu necessidade de dar descanso ao rosto humano?
Não, não é isso. Génesis é um projecto. Não me transformei num fotógrafo de animais ou num fotógrafo de paisagens. Resolvi trabalhar durante oito anos num projecto para mostrar que Génesis ainda existe. Nós vivemos num planeta onde 46 por cento ainda não foi destruído. Destruímos 54 por cento, mas 46 ainda não. Acho que temos de preservar essa parte. Temos de militar todos juntos para manter não só a nossa espécie, mas todas as outras espécies deste planeta. Temos um projecto ambiental no Brasil muito forte. Criamos uma fundação e através dela plantámos um pouco mais de um milhão de árvores de várias espécies que estão a reconstruir um ecossistema parecido com o que existia. Temos centros educacionais no Brasil e empregamos mais de 60 pessoas. É uma instituição ambientalista muito forte, talvez uma das mais importantes na recuperação ambiental no Brasil. Quando criamos o projecto Génesis, estavamos a pensar nesse objectivo: de fazer uma apresentação dessa parte desconhecida do planeta. Neste projecto eu não fotografo só as paisagens ou só os outros animais, também fotografo o Homem, que também faz parte da mega biodiversidade do planeta. Mas este Homem que fotografo é o Homem de há 3 mil anos, ou 5 mil anos. Ainda existimos assim. Há vários grupos dentro da floresta amazónica que nunca contactaram com mais ninguém. Génesis é a tentativa de mostar essa incrível mega biodiversidade do planeta com o intuito de a preservar. Depois de terminar este projecto posso voltar a fotografar um só animal, o Humano, tal como fotografei até agora.

Como é que correu esta experiência de casar as suas fotografias com a escrita de Mia Couto?
Foi uma maravilha. Telefonei ao Mia, falei-lhe da ideia e ele aceitou na hora. Mandamos cópias das fotografias e ele começou a trabalhar logo. Foi uma integração perfeita. Aqui a gente só olha para o Mia e para o meu trabalho, mas há um terceiro nome – o de Léila. Foi ela que organizou este livro desta forma que, para mim, é muito interessante.

Ela fez uma trabalho de edição?
Fez um trabalho de edição e criatividade. Ela é que criou o livro, ela que imaginou o formato, ela é que fez as sequências, ela é que imaginou que fotografia ficavam bem com outra fotografia e a forma como os textos entraram.

Era absolutamente necessário ser um escritor africano a assinar estes textos?
Sim, acho que era importante ser um escritor africano. Era importante estes textos serem de alguém que tenha vivido ou tenha passado muito tempo em África. Para mais alguém como o Mia, que conhece muito bem África e a Europa, uma pessoa que respeito demais. Tenho todos os livros do Mia. Tenho uma verdadeira relação com a escrita dele. Não foi só o facto de ser um africano, alguém que conhece África, mas foi o facto de ser o Mia.

Depois de mais de 30 anos a fotografar África o que é que lhe ficou no coração, para além do que lhe ficou na retina?
Essa é uma questão complicada. Na realidade, depois de se trabalhar tanto tempo num continente como este, já não se é a mesma pessoa. Você passa a ser a pessoa que você é, mais a pessoa que viu tudo aquilo – todas as modificações que surgiram, o trabalho que foi feito. Vi em África coisas maravilhosas, as paisagens mais incríveis, vi relações de vida de outras espécies colossais, vi coisas maravilhosas da nossa espécie. Vi as coisas mais cruéis da nossa espécie. Não é cruel no sentido das pessoas morreram, passarem mal… É pior. Cruel no sentido que lembra que a nossa espécie faz coisas horríveis. E isso fez-me lembrar tudo o que eu li e ouvi sobre a Idade Média. Tudo o que tem a ver com o mal e levar o mal mais além, a extremos. Senti tudo isso, e tudo isso trabalhou na minha alma. É muito forte o que eu pude ver, o que eu pude sentir, os riscos de vida por que passei em África. Quase fui morto umas três ou quatro vezes. Fiquei ferido. Tudo isso faz com que me sinta também um pouco africano. Essa relação ficou na carne. Vim de um país onde o africanismo é uma das principais componentes, nomeadamente na cultura, no sentido amplo do termo, que vai desde a escrita, à música, à alimentação, à forma de viver. África, para mim, raspa cá dentro.

Há uma imagem de África ligada à fome e à guerra que ficou colada ao nosso imaginário. África tem fome e armas mas tem outras coisas. É esse lado menos mediatizado que também nos tenta mostrar?
Fui para a Etiópia agora e disse isso a vários amigos que me perguntaram: “Como é que está o problema da fome?”. As pessoas quando pensam na Etiópia só pensam na fome. Porquê? Porque foi uma imagem recente que se criou no sistema de informação Ocidental e todas as pessoas ficaram com essa imagem. Mas ninguém imagina que a Etiópia foi o único país que não foi colonizado em África. A Etiópia foi um país que bateu o pé a uma potência europeia que era a Itália. Os etíopes têm uma cultura milenar. Quando os portugueses chegaram lá em 1500 a Etiópia já era um país cristão. A Etiópia tem uma história tão rica e tão forte e existem tantas etiópias dentro da Etiópia… Vivemos numa sociedade que vive de determinados chavões, determinados esteriótipos. A Etiópia não é só fome. As pessoas estão muito enganadas a respeito deste país. E estão muito enganadas a respeito de África. África é um continente de uma enorme força, poder, cultura e dignidade. É um continente que representa um quarto do planeta. Temos de levar isto em consideração e muitas vezes não levamos. Temos a pretensão, principalmente na Europa, de termos a melhor cultura e sabermos mais do que os outros, mas a gente ainda vive muito de estereótipos. Temos de nos libertar dessas ideias.

Há algum país que lhe tenha dado especial prazer fotografar?
Muitos. Na Etiópia, por exemplo, tive um enorme prazer a fotografar. Em Moçambique tive momentos de grande felicidade e de esperança. Na Namíbia também.

Imagino que durante este tempo todo a fotografar um continente se apercebeu das mudanças que foram surgindo. Consegue isolar um país onde essas alterações foram mais radicais?
É difícil dizer. Mas Moçambique teve uma alteração radical. Saiu de um sistema colonial onde existia um certo equilíbrio de vida e com a saída dos portugueses desequilibrou-se completamente. Encontravam-se populações jogadas à estrada sem se saber porquê. Convulsões internas que não tinham nada a ver com Moçambique, fruto da Guerra Fria. Mas, Moçambique transformou-se num país organizado. Podemos tirar o chapéu a [Joaquim] Chissano. Ele merece porque foi um grande presidente. Conseguiu trabalhar com as Nações Unidas, reunificar Moçambique e cumprir um fenomenal acordo de paz. Moçambique é hoje um país em vias de desenvolvimento. Existem uma quantidade de coisas que se passam hoje em África que são muito positivas.

Foi difícil juntar as fotografias mais antigas às mais recentes?
Não. São as mesmas. Na realidade só fiz talvez versões diferentes da mesma fotografia. Se você olhar para estas fotografias – você que talvez não esteja habituado a elas – não notará quais são as antigas e quais são as mais recentes.

No livro “Olhando o Sofrimento dos Outros” a ensaísta Susan Sontag escreve: “Para que as fotografias acusem, e eventualmente mudem as condutas, têm de chocar”. Que comentário lhe merece esta afirmação?
Acho que não. As fotografias não têm de chocar, as fotografias têm de transmitir um pouco da situação que o fotógrafo está a viver. Mas chocar… bom, pode haver interpretações diferentes de acordo com a formação das pessoas. Conheci muitos fotógrafos que tiveram a consciência de culpa porque fotografaram pessoas a morrer de fome, situações de guerra. Não tenho nenhuma consciência de culpa de nada disso. Acho que estes problemas têm de ser mostrados assim, têm de ser transmitidos. As crianças têm de ver isto, para tentar que estas coisas não aconteçam mais. Para compreenderem o sofrimento dos outros. Agora, se acho que têm de chocar? Não, não acho que tenham de chocar. O que têm é de mostrar. Nós temos de ser responsáveis e assumir os actos de maltrato da nossa espécie. E isso tem de ser discutido e difundido, o que é diferente de ser transformado em instrumento de choque.

Sontag escreve no mesmo livro que o problema das suas fotografias reside “na sua focagem nos fracos, reduzidos à sua fraqueza”. Quer comentar?
É o ponto de vista da Susan Sontag. Tem direito a ter opinião. Mas há uma coisa sobre os críticos de fotografia e os críticos de arte em geral que gostava de dizer: o facto de terem uma tribuna permite que se transformem em senhores da opinião, e querem que o seu ponto de vista passe a ser o correcto, mas muitas vezes eles não conhecem as realidades, nunca estiveram lá, não conhecem a situação sobre a qual estão a falar. O que fazem é simplesmente uma elaboração intelectual teórica. Uma coisa é dizer o que é bom, o que é mau, fazer um julgamento e dar um ponto de vista, outra é ir, ver, sentir, frequentar e transmitir. É o ponto de vista dela. Não sei… (encolher de ombros).

Não teme que com o estilo de composição das suas fotografias, que há quem classifique de “cinemáticas”, o foco daquilo que quer mostrar fuja apenas para a beleza das imagens?
Isso é culpa vossa! Vocês é que criaram o barroco das nossas casas. Eu venho do estado mais barroco do Brasil. Se calhar, tenho uma influência do barroco nas minhas fotografias, um pouco mais de luz… Isso tudo faz parte da minha cultura, de onde vim. Não lhes coloquei nada mais para dar um momento mais dramático, ou menos dramático. É assim que vejo as coisas, que vejo o mundo. Há pessoas que aceitam e outras que não. São pontos de vista. Encaixo uns e não encaixo outros.

Li numa entrevista que tem tido dificuldade em passar no aeroporto os 600 rolos que leva em cada viagem de trabalho que faz
O problema é o raio X que destrói os meus filmes. Depois do 11 de Setembro é dificil convencer as pessoas que eu não tenho uma bomba ali dentro. É um drama. Se os filmes passarem neste sistema eu posso perder o meu trabalho.

Vai voltar a África para fotografar?
Vou. Estou a chegar da Etiópia e vou voltar em Janeiro.

E depois de Génesis?
Não sei. Se ainda estiver vivo vou pensar em outra coisa.

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