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Como identificar manipulações em fotos digitais


A revista Scientific American publicou um guia prático com cinco técnicas para a identificação de manipulações em fotos digitais, falando das análises que os especialistas realizam para descobrir traços de alterações em fotografias. O artigo é uma complementação prática de outro sobre o mesmo assunto, publicado no mês pssado.
Via Blog do Gjol

Documentário apresenta o dia-a-dia dos fotojornalistas cariocas…


Talvez vocês já tenham tido acesso ao documentário “Abaixando a maquina”, que fala sobre a ética e o cotidiano do fotojornalismo.


 

 

O cotidiano do fotojornalismo policial carioca, a tensão, o medo, os dilemas e a ética na cobertura da violência nas comunidades carentes constroem o mosaico de imagens e depoimentos de ‘Abaixando a Máquina’, documentário do fotógrafo Guillermo Planel e do jornalista Renato de Paula . 

 

“Mostramos como funciona a profissão, a ação dos fotógrafos nos confrontos armados, o drama diante das famílias que encontram parentes mortos. Será que existe o momento de abaixar a máquina?”, pergunta Guillermo. “O filme levanta questões, mas não existem conclusões. Ficam para o julgamento de cada um”, afirma.

 

O documentário em longa-metragem, produzido de forma independente, abdica da narrativa em off e traz longa seqüência de depoimentos dos principais repórteres fotográficos cariocas, ao mesmo tempo em que exibe uma vasta seleção de imagens da guerra entre bandidos e policiais travada diariamente nas favelas, morros e ruas da cidade.

 

“Muitas vezes saímos de casa sem saber se voltaremos”, diz, no filme, o premiado otógrafo Severino Silva, de O Dia, um dos melhores profissionais do Brasil. Há também fotos e depoimentos de outros profissionais do jornal, como Alexandre Brum, Carlo Wrede, João Laet, Uanderson Fernandes e Nilton Claudino.A equipe de filmagem acompanha a ação dos profissionais das lentes em tiroteios, como o momento em que Uanderson registrou o traficante baleado na fuga. “Não tem jeito, ficamos torcendo para a ação acontecer”, diz Nilton Claudino.

 

A qualidade do material exibido impressiona e as imagens premiadas não deixam o espectador desgrudar os olhos da tela. Os diretores negociam a exibição do filme em maio, em circuito comercial, e planejam levar o trabalho a comunidades e escolas para debates.

 

A emoção dos fotógrafos com seus cliques

 

‘Abaixando a Máquina’ mostra profissionais que não se acostumam com a violência que passa diariamente diante de seus olhos, lembram de suas famílias e deixam a emoção vir à tona em momentos como o depoimento do fotógrafo Wilton Jr., que chora ao lembrar da foto feita num velório, congelando a imagem de várias crianças chorando ao lado do amigo morto, no caixão.

 

O fotógrafo Custódio Coimbra, na cobertura da tragédia com o ônibus 174, lembra do momento em que enquadrou na lente o bandido dentro do ônibus, que agia como se tirasse na sorte, entre duas mulheres, qual delas iria matar, com a pistola apontada para as cabeças. “Pensei: se esse cara atirar não vou mais ser fotógrafo”, afirma. Há também depoimentos de delegados, políticos e professores de fotografia, tecendo análises de cunho sociológico sobre a moderna profissão do fotógrafo policial.

 

Seguem ainda dois links para trechos do documentário: 

 

http://br.youtube.com/watch?v=JGk6J59C7OE

 

http://mediacenter.db4.com.br/?id=393

Robert Capa – encontradas fotos e negativos perdidos


Três valises de papelão contendo milhares de negativos foram encontradas no México. Trata-se de um um tesouro cultural do mais alto interesse: as fotos perdidas de Robert Capa da Guerra Civil Espanhola. O  Estadão reportou que:

“Para o pequeno grupo de especialistas em fotografia ciente de sua existência, ela era simplesmente ”a mala mexicana””. E, no panteão dos tesouros culturais modernos perdidos, o objeto possuía a mesma aura mítica dos primeiros manuscritos de Hemingway, que sumiram de uma estação de trem em 1922. A mala – na verdade, um conjunto de três frágeis valises de papelão – continha milhares de negativos de fotos que Robert Capa, um dos pioneiros da fotografia da guerra moderna, fez durante a Guerra Civil Espanhola antes de fugir para os Estados Unidos em 1939, deixando para trás o conteúdo de sua câmara escura em Paris.

Capa supôs que o trabalho fora perdido na invasão nazista – e continuou pensando assim até 1954, quando morreu no Vietnã. Em 1995, no entanto, começou a circular a notícia de que os negativos haviam de algum modo sobrevivido, depois de fazer uma viagem digna de um romance de John le Carré: de Paris a Marselha e então para a Cidade do México, nas mãos de um general e diplomata mexicano que servira sob Pancho Villa.”

O fim do “momento decisivo”


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Em 2004,  muitos fotojornalistas ficaram tristes ao ler o anúncio da Kodak de que não mais venderia câmeras que utilizavam película no mercado norte-americano, europeu e japonês. A Kodak começa ali a abandonar para sempre o filme fotográfico. O anúncio  lembrava ainda do valor da fotografia fixa, de um tempo em que o fotógrafo buscava o “momento decisivo”, no melhor estilo criado por Cartier Bresson (wikipedia).

O editorial da revista sobre fotografia ZoneZero,  escrito por Julian Tait, dedica sua análise a imediata convergência entre a fotografia fixa e o vídeo digital. Diz Tait:

“Em um artigo recentemente publicado no British Journal of Photography, o fotojornalista  Dirck Halstead  afirma que em breve desaparecerá o fotógrafo de imagens fixas, dando lugar a fotógrafos que trabalhem com vídeo (videoastas). Para o repórter fotográfico, as câmeras de vídeo estão cada vez mais baratas e hoje em dia  podem gravar em alta definição, e as fotos fixas podem ser tomadas e ampliadas utilizando algorítmos que podem produzir imagens de mais de 67 megapixels. O custo de se contratar apenas um profissional  que pode produzir tanto imagens fixas, vídeos e áudio resulta num  forte atrativo para muitas agências de notícias e veículos de mídia”.

A câmera fotográfica (será que podemos chamar assim?) que aparece neste post estará à venda a partir de março deste ano. É uma CASIO EXILIM. Esta máquina  produz 60 quadros por segundo – o dobro da velocidade de captura de uma câmera de vídeo atual -, podendo realizar até 300 fotos por segundo e gravar em alta definição, como se vê na imagem abaixo.

casio-hd.jpg

O momento decisivo parece cada vez mais condenado aos museus, entre belas e elegantes Leicas e fotos em preto-e-branco. A fotografia e o vídeo convergem de maneira inevitável, com diz Julian Tait em seu editorial. E um novo tipo de profissional da fotografia e do vídeo surge nas redação cada vez mais integradas. Parece que um novo momento jornalístico e artístico está começando.

Jorge Felz – com Mirá

Link ZoneZero “Ahora todos somos videastas”

Fotojornalismo Multimídia


Paulo Fehlauer publicou no NaRua.org uma entrevista com o fotógrafo Ed Kashi da National Geographic. Vejam alguns trechos:

Em primeiro lugar, gostaria de pedir que falasse brevemente sobre a sua vida e o seu trabalho, como começou, o que o levou ao fotojornalismo, e o que o move hoje.

ED KASHI: Eu comecei minha carreira em San Francisco [Califórnia], depois de me formar na Syracuse University, com especialização em Fotojornalismo, o que era raro em 1979. Inicialmente, trabalhei para clientes locais fazendo retratos e cobrindo eventos, mas sempre tentei me direcionar para trabalhos pessoais e, alguns anos depois, comecei a trabalhar para revistas de alcance nacional, viajando e crescendo na carreira. Mas foi só depois de começar um projeto pessoal na Irlanda do Norte, em 1988, que meu trabalho começou a se desenvolver em direção ao que eu realmente queria como fotógrafo. Sempre quis ser um contador de histórias, fazer reportagens com profundidade, sobre questões políticas e sociais. É esse tipo de envolvimento que me faz sentir vivo.

Ed, você tem experimentado novos formatos para a divulgação do seu trabalho, especialmente pela internet, como já vimos nos sites da MSNBC e da MediaStorm. Seu trabalho também já apareceu na TV e em festivais de cinema, o que parece incomum para um fotógrafo. Entretanto, há profissionais que reclamam por terem de fazer um trabalho que não seria sua especialidade (vídeo, por exemplo), e outros ainda que dizem que o fotojornalismo está morto. Também é um fato que já não há mais aquela tradição de grandes revistas publicando e bancando grandes ensaios fotojornalísticos. Baseado nessas afirmações, tenho algumas perguntas que gostaria de fazer:

O que o levou a procurar estes formatos menos tradicionais? O que o atraiu neles?

EK: Eu comecei a trabalhar com vídeo em 2000, durante o meu projeto “Aging In America”. Senti que era o momento de capturar também as vozes dos meus personagens, para adicionar camadas de sentido às imagens, enriquecendo o conteúdo final. A partir daí, comecei a colaborar com alguns websites, e passei a pensar mais nessa coisa de fotografar em sequência.

 Leiam a entrevista na íntegra!

Imagens do dia


O jornal inglês, The Guardian, é um dos pioneiros da cobertura 24 horas por dia.  Para quem deseja ver um pouco dessa produção diária, é interessante acessar a seção 24 hours da editoria World do jornal. Esta seção apresenta as  melhores fotos do dia. Para quem faz Fotojornalismo, é quase uma obrigação a visita diária.

Uma conversa com Sebastião Salgado…


 Direto do blog português Arte Photográphica, do Sérgio Gomes, uma interessante conversa com Sebastião Salgado que acaba de lançar o livro “África”, com imagens coletadas em mais de 20 anos de viagens ao continente.

Salgado, 63 anos, ainda respondia aos jornalistas quando a mesa do auditório da FNAC já era preparada para a apresentação de outro livro, desta vez relacionado com homeopatia. O fotógrafo olhou à sua volta e ficou espantado com a velocidade de transformação da plateia, com a forma como aconteciam coisas tão distintas num espaço tão pequeno. “Os pedreiros que fizeram isto jamais imaginam o que se passa aqui hoje”, lançou.
Perante uma sala cheia, aquele que é considerado um dos maiores fotojornalistas vivos falou da sua relação com África, da primeira viagem ao imenso continente (ainda como economista), do dia em que acompanhou as tropas da Frelimo, em Moçambique, da amizade com Mia Couto. No fim deu autógrafos. Muitos autógrafos. Foram quase duas horas a escrever nas primeiras páginas do seu último álbum que reúne imagens de uma grande viagem por África que já dura mais de 30 anos.

Por que é que fotografa?
Primeiro porque a minha profissão é fotógrafo, adoro fotografar. Quando pego na minha câmara e vou trabalhar é de manhã à noite. É um prazer fotografar. Já levo trinta e tal anos a fotografar e ainda não encontrei um dia no meu trabalho que não fiz com prazer. Em segundo lugar, é a minha forma de vida é o que eu sei fazer. Enquanto tiver prazer vou continuar. Para mim não há limite de tempo ou de idade. Aliás, isso é uma característica de muitos fotógrafos. Em 2002, quando cheguei ao México à casa de Don Manuel Álvarez Bravo [mestre da fotografia do séc. XX que morreu nesse ano] para comemorar o seu 100º aniversário, ele disse-me: “Sebastião! Tenho de te mostrar as minhas últimas fotografias!”. E eu perguntei: “Mas, Don Manuel, você ainda fotografa?”. E ele respondeu: “Sim, claro!”. E quando vi as fotografias eram dos pés dele. Don Manuel já não podia andar. Eram uns pés machucados e ele fotografava esses pés o dia inteiro. Essa é uma característica dos fotógrafos, são pessoas que normalmente vivem muito no mundo deles. Desligam-se de outras coisas e fotografam até ao fim. Tive um amigo que morreu agora em Paris com 94 anos e ainda fotografava. É uma forma de vida.

Sente-se confortável com o rótulo de fotógrafo humanista que lhe é atribuído?
Não sou um fotógrafo humanista! Isso foi um rótulo que algum bobo me colocou e ficou assim. Sou simplesmente um fotógrafo. As pessoas não conhecem todo o meu trabalho. Faço muita fotografia industrial, faço muita fotografia de publicidade e faço uma quantidade de retratos para o “New York Times”. Hoje estou a fotografar a natureza. Esse rótulo de fotógrafo humanista é uma bobagem que me foi colocada em algum momento e todos repetiram.

Que papel ainda pode ter a fotografia no feroz jogo geo-político em que estamos mergulhados?
Tem um grande poder. Mais do que nunca. A fotografia tem uma capacidade muito forte de transmissão. É difícil, hoje, num sistema de transmissão como a Internet comunicar em várias línguas. Esse problema não acontece com a fotografia. A linguagem da imagem não precisa de tradução. É também por isso que a fotografia tem um papel mais importante do que tinha antes. É muito mais importante hoje na transmissão de ideologias, de pensamentos, de informação.

Ao longo do seu trabalho, sobretudo aquele em que está representada a figura humana, vemos que assume quase sempre um lado da barricada. Não tem receio que as histórias que nos conta sejam demasiado parciais?
Mas que bom! É isso mesmo, bem parciais. Alguém tem que fazer um lado. Outra pessoa vai fazer o outro e o conjunto vai fazer um todo. Por exemplo, tenho um amigo que só fotografa a comunidade judia. E eu fotografo determinadas coisas que para mim foram importantes. Vim de um país de problemas, de um país em desenvolvimento. Vim de uma formação ideológico-política de esquerda e essa tem sido a minha forma de vida. Tem de haver uma coerência com a minha maneira de pensar. É isso mesmo: a minha fotografia é bem parcial.

Ao contrário do que acontecia nos primeiro trabalhos, parece que agora lhe interessam cada vez mais temas como a terra, o mar, os animais. Sentiu necessidade de dar descanso ao rosto humano?
Não, não é isso. Génesis é um projecto. Não me transformei num fotógrafo de animais ou num fotógrafo de paisagens. Resolvi trabalhar durante oito anos num projecto para mostrar que Génesis ainda existe. Nós vivemos num planeta onde 46 por cento ainda não foi destruído. Destruímos 54 por cento, mas 46 ainda não. Acho que temos de preservar essa parte. Temos de militar todos juntos para manter não só a nossa espécie, mas todas as outras espécies deste planeta. Temos um projecto ambiental no Brasil muito forte. Criamos uma fundação e através dela plantámos um pouco mais de um milhão de árvores de várias espécies que estão a reconstruir um ecossistema parecido com o que existia. Temos centros educacionais no Brasil e empregamos mais de 60 pessoas. É uma instituição ambientalista muito forte, talvez uma das mais importantes na recuperação ambiental no Brasil. Quando criamos o projecto Génesis, estavamos a pensar nesse objectivo: de fazer uma apresentação dessa parte desconhecida do planeta. Neste projecto eu não fotografo só as paisagens ou só os outros animais, também fotografo o Homem, que também faz parte da mega biodiversidade do planeta. Mas este Homem que fotografo é o Homem de há 3 mil anos, ou 5 mil anos. Ainda existimos assim. Há vários grupos dentro da floresta amazónica que nunca contactaram com mais ninguém. Génesis é a tentativa de mostar essa incrível mega biodiversidade do planeta com o intuito de a preservar. Depois de terminar este projecto posso voltar a fotografar um só animal, o Humano, tal como fotografei até agora.

Como é que correu esta experiência de casar as suas fotografias com a escrita de Mia Couto?
Foi uma maravilha. Telefonei ao Mia, falei-lhe da ideia e ele aceitou na hora. Mandamos cópias das fotografias e ele começou a trabalhar logo. Foi uma integração perfeita. Aqui a gente só olha para o Mia e para o meu trabalho, mas há um terceiro nome – o de Léila. Foi ela que organizou este livro desta forma que, para mim, é muito interessante.

Ela fez uma trabalho de edição?
Fez um trabalho de edição e criatividade. Ela é que criou o livro, ela que imaginou o formato, ela é que fez as sequências, ela é que imaginou que fotografia ficavam bem com outra fotografia e a forma como os textos entraram.

Era absolutamente necessário ser um escritor africano a assinar estes textos?
Sim, acho que era importante ser um escritor africano. Era importante estes textos serem de alguém que tenha vivido ou tenha passado muito tempo em África. Para mais alguém como o Mia, que conhece muito bem África e a Europa, uma pessoa que respeito demais. Tenho todos os livros do Mia. Tenho uma verdadeira relação com a escrita dele. Não foi só o facto de ser um africano, alguém que conhece África, mas foi o facto de ser o Mia.

Depois de mais de 30 anos a fotografar África o que é que lhe ficou no coração, para além do que lhe ficou na retina?
Essa é uma questão complicada. Na realidade, depois de se trabalhar tanto tempo num continente como este, já não se é a mesma pessoa. Você passa a ser a pessoa que você é, mais a pessoa que viu tudo aquilo – todas as modificações que surgiram, o trabalho que foi feito. Vi em África coisas maravilhosas, as paisagens mais incríveis, vi relações de vida de outras espécies colossais, vi coisas maravilhosas da nossa espécie. Vi as coisas mais cruéis da nossa espécie. Não é cruel no sentido das pessoas morreram, passarem mal… É pior. Cruel no sentido que lembra que a nossa espécie faz coisas horríveis. E isso fez-me lembrar tudo o que eu li e ouvi sobre a Idade Média. Tudo o que tem a ver com o mal e levar o mal mais além, a extremos. Senti tudo isso, e tudo isso trabalhou na minha alma. É muito forte o que eu pude ver, o que eu pude sentir, os riscos de vida por que passei em África. Quase fui morto umas três ou quatro vezes. Fiquei ferido. Tudo isso faz com que me sinta também um pouco africano. Essa relação ficou na carne. Vim de um país onde o africanismo é uma das principais componentes, nomeadamente na cultura, no sentido amplo do termo, que vai desde a escrita, à música, à alimentação, à forma de viver. África, para mim, raspa cá dentro.

Há uma imagem de África ligada à fome e à guerra que ficou colada ao nosso imaginário. África tem fome e armas mas tem outras coisas. É esse lado menos mediatizado que também nos tenta mostrar?
Fui para a Etiópia agora e disse isso a vários amigos que me perguntaram: “Como é que está o problema da fome?”. As pessoas quando pensam na Etiópia só pensam na fome. Porquê? Porque foi uma imagem recente que se criou no sistema de informação Ocidental e todas as pessoas ficaram com essa imagem. Mas ninguém imagina que a Etiópia foi o único país que não foi colonizado em África. A Etiópia foi um país que bateu o pé a uma potência europeia que era a Itália. Os etíopes têm uma cultura milenar. Quando os portugueses chegaram lá em 1500 a Etiópia já era um país cristão. A Etiópia tem uma história tão rica e tão forte e existem tantas etiópias dentro da Etiópia… Vivemos numa sociedade que vive de determinados chavões, determinados esteriótipos. A Etiópia não é só fome. As pessoas estão muito enganadas a respeito deste país. E estão muito enganadas a respeito de África. África é um continente de uma enorme força, poder, cultura e dignidade. É um continente que representa um quarto do planeta. Temos de levar isto em consideração e muitas vezes não levamos. Temos a pretensão, principalmente na Europa, de termos a melhor cultura e sabermos mais do que os outros, mas a gente ainda vive muito de estereótipos. Temos de nos libertar dessas ideias.

Há algum país que lhe tenha dado especial prazer fotografar?
Muitos. Na Etiópia, por exemplo, tive um enorme prazer a fotografar. Em Moçambique tive momentos de grande felicidade e de esperança. Na Namíbia também.

Imagino que durante este tempo todo a fotografar um continente se apercebeu das mudanças que foram surgindo. Consegue isolar um país onde essas alterações foram mais radicais?
É difícil dizer. Mas Moçambique teve uma alteração radical. Saiu de um sistema colonial onde existia um certo equilíbrio de vida e com a saída dos portugueses desequilibrou-se completamente. Encontravam-se populações jogadas à estrada sem se saber porquê. Convulsões internas que não tinham nada a ver com Moçambique, fruto da Guerra Fria. Mas, Moçambique transformou-se num país organizado. Podemos tirar o chapéu a [Joaquim] Chissano. Ele merece porque foi um grande presidente. Conseguiu trabalhar com as Nações Unidas, reunificar Moçambique e cumprir um fenomenal acordo de paz. Moçambique é hoje um país em vias de desenvolvimento. Existem uma quantidade de coisas que se passam hoje em África que são muito positivas.

Foi difícil juntar as fotografias mais antigas às mais recentes?
Não. São as mesmas. Na realidade só fiz talvez versões diferentes da mesma fotografia. Se você olhar para estas fotografias – você que talvez não esteja habituado a elas – não notará quais são as antigas e quais são as mais recentes.

No livro “Olhando o Sofrimento dos Outros” a ensaísta Susan Sontag escreve: “Para que as fotografias acusem, e eventualmente mudem as condutas, têm de chocar”. Que comentário lhe merece esta afirmação?
Acho que não. As fotografias não têm de chocar, as fotografias têm de transmitir um pouco da situação que o fotógrafo está a viver. Mas chocar… bom, pode haver interpretações diferentes de acordo com a formação das pessoas. Conheci muitos fotógrafos que tiveram a consciência de culpa porque fotografaram pessoas a morrer de fome, situações de guerra. Não tenho nenhuma consciência de culpa de nada disso. Acho que estes problemas têm de ser mostrados assim, têm de ser transmitidos. As crianças têm de ver isto, para tentar que estas coisas não aconteçam mais. Para compreenderem o sofrimento dos outros. Agora, se acho que têm de chocar? Não, não acho que tenham de chocar. O que têm é de mostrar. Nós temos de ser responsáveis e assumir os actos de maltrato da nossa espécie. E isso tem de ser discutido e difundido, o que é diferente de ser transformado em instrumento de choque.

Sontag escreve no mesmo livro que o problema das suas fotografias reside “na sua focagem nos fracos, reduzidos à sua fraqueza”. Quer comentar?
É o ponto de vista da Susan Sontag. Tem direito a ter opinião. Mas há uma coisa sobre os críticos de fotografia e os críticos de arte em geral que gostava de dizer: o facto de terem uma tribuna permite que se transformem em senhores da opinião, e querem que o seu ponto de vista passe a ser o correcto, mas muitas vezes eles não conhecem as realidades, nunca estiveram lá, não conhecem a situação sobre a qual estão a falar. O que fazem é simplesmente uma elaboração intelectual teórica. Uma coisa é dizer o que é bom, o que é mau, fazer um julgamento e dar um ponto de vista, outra é ir, ver, sentir, frequentar e transmitir. É o ponto de vista dela. Não sei… (encolher de ombros).

Não teme que com o estilo de composição das suas fotografias, que há quem classifique de “cinemáticas”, o foco daquilo que quer mostrar fuja apenas para a beleza das imagens?
Isso é culpa vossa! Vocês é que criaram o barroco das nossas casas. Eu venho do estado mais barroco do Brasil. Se calhar, tenho uma influência do barroco nas minhas fotografias, um pouco mais de luz… Isso tudo faz parte da minha cultura, de onde vim. Não lhes coloquei nada mais para dar um momento mais dramático, ou menos dramático. É assim que vejo as coisas, que vejo o mundo. Há pessoas que aceitam e outras que não. São pontos de vista. Encaixo uns e não encaixo outros.

Li numa entrevista que tem tido dificuldade em passar no aeroporto os 600 rolos que leva em cada viagem de trabalho que faz
O problema é o raio X que destrói os meus filmes. Depois do 11 de Setembro é dificil convencer as pessoas que eu não tenho uma bomba ali dentro. É um drama. Se os filmes passarem neste sistema eu posso perder o meu trabalho.

Vai voltar a África para fotografar?
Vou. Estou a chegar da Etiópia e vou voltar em Janeiro.

E depois de Génesis?
Não sei. Se ainda estiver vivo vou pensar em outra coisa.

A fotografia como ferramenta de transformação social


No fim de setembro, em sala de aula, depois de exaustivamente ver, analisar e refletir sobre a produção fotográfica de profissionais como Catier-Brsson, Sebastião Salgado e de todos os fotógrafos que fizeram parte da FSA nos EUA de 1930, foram distribuídos diversos textos entre os alunos.

A proposta era gerar mais uma grande reflexão em sala para depois, cada um escrever um pequeno artigo sobre o papel do fotojornalismo diante da sociedade, isto é, a idéia era permitir que cada um refletisse um pouco mais sobre o como a fotografia deve funcionar enquanto instrumento de ransformação social.Como só agora ocorreu a corrida atrás destes textos, coloco aqui os endereços dos sites em que os textos podem ser localizados (engraçado, ninguém mais se lembrava disso… só o professor)

Os alunos (manhã e noite) podem formar duplas (duplas, nada de triângulos ou quadrados mágicos) para dar conta, até o dia 22 de novembro, uma quinta-feira, de um artigo sobre as possibilidades da fotografia enquanto instrumento de transformação social. O artigo deverá seguir as normas da ABNT para citações, referências bibliográficas e formatação de texto; ter entre 5 e 10 páginas, espaçamento 1,5 e fonte Times New roman, corpo 12. não é necessário montar capa ou outros elementos pré-textuais. Vejam o template aqui disponível.

A seguir, uma lista de textos para consulta:

 No mais, existem muitos textos disponíveis na Biblioteca (qual foi a última vez que vocês foram até lá para pesqisar?) e a web também pode ser uma boa fonte de pesquisa… mas cuidado, instalei um programa novo, chamado “farejador” que muito me auxilia em detectar cópias mal feitas de trabalhos…

Para finalizar, uma amostra do que pode ser uma fotografia cmo caráter de transformação social. A image, feita na Favela da Maré, sob a Linha Amarela, em uma parte da Vila do Pinheiro, ocupada por moradores de rua,  é de Edmilson Barbosa. 

O autor integra o projeto Imagens do Povo, centro de pesquisa e formação de fotógrafos e documentaristas populares, criado pelo Observatório das Favelas. Os trabalhos podem ser contratados pelo e-mail contato@imagensdopovo.org.br .

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E para os fotojornalistas?


Como não temos um código de conduta especial para o trabalho do repórter fotográfico, sugiro que leiam o código criado pela NPPA – National Press Photographers Association,  uma entidade profissional norte-americana.É claro que se trata de regras mais adequadas à atividade profissional num outro país, com características particulares de mercado, formação profissional, … mas nada impede que nós usemos o que há de melhor no código deles.

Veja a seguir o que diz o código da NPPA:

Os fotojornalistas funcionam como fiduciários do público. O seu papel principal é o de informar visualmente sobre eventos significantes, e sobre os vários pontos de vista do nosso mundo comum. O seu objetivo principal é a lealdade e a representação exaustiva do assunto que têm em mãos. Como fotojornalistas, têm a responsabilidade de documentar a sociedade, e de preservar a sua história através de imagens.

Imagens fotográficas e de vídeo podem revelar grandes verdades, expor o mal e a negligência, inspirar esperança e compreensão e ligar as pessoas à volta do globo através da compreensão da linguagem visual. As fotografias podem também causar muitos danos se forem insensivelmente intrusivas ou manipuladas.

Este código visa promover a mais elevada qualidade em todas as formas de fotojornalismo e reforçar a confiança pública na profissão. Também tem como intuíto servir como ferramenta educacional quer para os que praticam, quer para os que apreciam fotojornalismo. Com esse fim, a National Press Photographers Association avança com o seguinte Código de Ética:

Os fotojornalistas, e quem gere a produção de notícias visuais são responsáveis por manter os seguintes padrões no seu trabalho diário:

– Ser preciso e exaustivo na representação dos sujeitos.

– Resistir a ser manipulado por oportunidades fotográficas organizadas.

– Ser completo e prover contexto quando se fotografa ou grava sujeitos.

– Evitar estereotipar indivíduos e grupos.

– Reconhecer e trabalhar no sentido de evitar apresentar a sua opinião nos trabalhos.

– Tratar todos os sujeitos com respeito e dignidade.

– Ter consideração especial por assuntos vulneráveis e compaixão pelas vítimas de crimes e tragédias.

– Ser intrusivo em momentos privados de dor apenas quando o público tiver uma suprema e justificada necessidade de ver.

– Quando se fotografa sujeitos não contribuir intencionalmente para alterar, ou tentar alterar ou influenciar os eventos.

– A edição deve manter a integridade das imagens fotográficas, do seu conteúdo e contexto.

– Não manipular imagens, ou adicionar, ou alterar o som de nenhuma forma que possa enganar os espectadores, ou falsear os assuntos.

– Não pagar às fontes ou aos sujeitos nem os recompensar materialmente por informação ou participação.

– Não aceitar presentes, favores, ou compensação dos que podem procurar influenciar a cobertura.

– Não sabotar intencionalmente os esforços de outros jornalistas.

Idealmente, os fotojornalistas deviam:

– Esforçar-se para assegurar que os assuntos públicos sejam conduzidos em público.

– Defender os direitos de acesso para todos os jornalistas.

– Pensar proativamente, como um estudante de psicologia, sociologia, política e arte, para desenvolver uma visão e apresentação única.

– Trabalhar com apetite voraz sobre eventos atuais e em meios de comunicação contemporâneos.

– Lutar por acesso total e sem restrições aos sujeitos, recomendar alternativas para encurtar e apressar oportunidades, procurar uma diversidade de pontos de vista, e trabalhar para mostrar pontos de vista impopulares e pouco notórios.

– Evitar envolvimentos políticos, cívicos e empresariais ou outras ocupações que comprometam ou aparentem comprometer a sua independência jornalística.

– Lutar por ser discreto e humilde quando se lida com sujeitos.

– Respeitar a integridade do momento fotográfico.

– Lutar através do exemplo e da influência para manter o espírito e os elevados padrões expressos neste código.

– Quando confrontados com situações nas quais a sua ação não é clara, procurar conselho dos que detêm maior experiência profissional.

– Os fotojornalistas devem estudar constantemente o seu ofício e a ética que o guia.

© 2004 The National Press Photographers Association, Inc.

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